Reabilitação da Aldeia do Trebilhadouro


COORDENAÇÃO GERAL

Armando Francisco Adriano Ribeiro

Técnico Superior em Planeamento Regional e Urbano; especialização em Gestão Urbanística

EQUIPA TÉCNICA

Isabel da Costa Bastos – Arquitecta

Paula Maria Horta Martins Resende Ribeiro – Planeadora

Nadine Ramalho– Arquitecta

Francisco Marques – Engenheiro Civil





PROPOSTA DE INTERVENÇÃO

Aldeia do Trebilhadouro…memórias e vivências na construção do presente

Câmara Municipal de Vale de Cambra

Divisão de Planeamento

Este projecto integra-se numa estratégia de intervenção que se assume para o Município de Vale de Cambra, apostando na potenciação dos seus recursos para contrariar a desertificação, promover o interior e atrair públicos e actividades ao concelho.

Não constitui pois, uma acção isolada, mas um exercício de requalificação que será articulado com um conjunto de políticas de desenvolvimento. Nesta perspectiva, Trebilhadouro constituir-se-á como uma experiência piloto que, concerteza, nos trará vários ensinamentos e será um ponto de partida para a implementação do grande projecto que nos propomos realizar, em que as comunidades locais serão as principais interlocutoras na dinamização de factores que nos diferenciam e tornam o concelho apetecível e visitável.

O Presidente da Câmara Municipal

José António Bastos Silva, Engº



… no contexto das políticas

A procura de alternativas ao turismo tradicional, associada a uma tendência crescente para a valorização de áreas de elevada qualidade ambiental e de fraca densidade de ocupação, conferem ao município de Vale de Cambra um potencial turístico que pode assumir-se como vantagem competitiva.

Na realidade, constata-se a necessidade, e urgência, de acautelar e preservar a riqueza natural extraordinária do concelho, fomentando a recuperação e qualificação de alguns núcleos rurais que, pelas suas especificidades possam vir a assumir-se como pólos de atracção de visitantes e permitir o despoletar de actividades que fixem as populações.

O aproveitamento das potencialidades passa tanto pela multiplicação de iniciativas locais de recuperação e beneficiação do construído, como também pelo fomento do agro-turismo e do turismo da habitação e pela criação, em associação, de outras infra-estruturas e equipamentos de animação

Contrariar a desertificação exige, neste município, a associação de planeamento e acção social, intervindo no espaço físico e salvaguardando o património humano. Por outro lado e assumindo, a agricultura a tempo parcial num contexto de pluriactividade, uma importância muito considerável em Vale de Cambra, a sua dinamização tem que ser perspectivada como um complemento à economia familiar, associada à criação de condições (infraestruturas, equipamentos…) que permitam a fixação e rejuvenescimento das populações.

O investimento em projectos que conciliem a vertente pedagógica das paisagens naturais com os valores culturais do património arquitectónico e arqueológico poderá constituir um ponto de partida, em que a valorização e promoção dos locais assenta no envolvimento das populações de forma a conduzi-las à assumpção espontânea de atitudes voluntaristas, como verdadeiras “guardiãs”.



Desafios e Estratégias …

Vários são os desafios para este município na prossecução da sua política de qualificação e preservação do seu espaço rural. Deparam-se-nos algumas apostas que, de uma forma integrada, poderão constituir uma estratégia de intervenção.

Começar-se-á, como eixo fundamental, pela qualificação dos recursos humanos com vista à dinamização de projectos que envolvam a gestão integrada dos recursos paisagísticos, ambientais e patrimoniais, tendo por base as populações locais, que conhecem o território e os seus atributos. O seu envolvimento deverá ser transversal, ou seja, abranger das faixas etárias mais jovens às mais idosas.

Os mais idosos serão os verdadeiros interlocutores da cultura e hábitos locais, enquanto os mais jovens constituem o potencial de rejuvenescimento destas áreas. A dinamização da formação de guias/intérpretes da Natureza que venham a desenvolver actividades lúdicas e/ou pedagógicas na área do património natural, poderá constituir um exemplo.

A responsabilização da população para a utilização consciente e a defesa do património local é outro dos vectores fundamentais. A formação de eco-brigadas procurando o despertar de um sentimento colectivo e de uma atitude pró-activa de respeito pela Natureza e pelo património e paisagem do concelho, constitui uma estratégia para a preservação.

Elemento fundamental neste processo é a dinamização dos serviços municipais para a promoção de iniciativas articuladas que apostem na educação ambiental reforçando atitudes e comportamentos de promoção da qualidade do Ambiente, partindo de projectos que tenham nas crianças e nos jovens o público-alvo.

Trata-se de um programa de acção envolvendo, nomeadamente, o Museu Municipal, a Biblioteca, o Posto de Turismo e o Gabinete de Comunicação e Imagem.



A criação de condições de alojamento deverá basear-se na recuperação de construções nestes núcleos característicos, de modo a que se possa apostar na promoção de um turismo da Natureza que permita o conhecimento das vivências rurais do concelho.

A definição de itinerários/percursos pedestres e para cicloturismo para descoberta de aldeias tradicionais, alminhas, moinhos de água, espigueiros, espécies dominantes no concelho, a promoção e implementação de um sistema de sinalização do património do concelho (natural, arqueológico e construído) com indicação e informação sobre os locais e, ainda, a projecção destes espaços para o exterior do concelho, atraindo visitantes, são algumas das intervenções preconizadas.



O fomento de uma gastronomia de qualidade dando formação à população do interior do concelho ao nível da qualidade dos produtos, bem receber, acolhimento de turistas e desenvolvimento de formas criativas de divulgação e comercialização dos produtos, e dirigia a donas de casa, proprietários de estabelecimentos de restauração, jovens desempregados, terá uma dupla finalidade:

- Incentivar as produções agrícolas locais e promover sentimentos de auto-estima nas populações em situação de isolamento social e formas de de obtenção de rendimentos suplementares e, mesmo, de novas ocupações, e

- Estimular um acolhimento de qualidade, diferenciado e fidelizador.

De igual modo, o fomento da agricultura biológica dinamizando unidades de produção agrícola, poderá permitir a valorização da agricultura como sub-sector económico viável nestas zonas rurais, mais empobrecidas. Este eixo de intervenção deverá ter por base uma aposta nos jovens agricultores numa tentativa de rejuvenescimento das comunidades locais.

Finalmente, mas fundamental, será o envolvimento das associações locais e seus recursos humanos e seu incentivo ao investimento na reorganização e gestão do seu funcionamento, articulando programas associativos na área paisagística e do artesanato, atribuindo-lhes alguma responsabilidade na gestão dos espaços intervencionados. Esta é uma experiência que tem resultado neste município e que será de prosseguir.





…A aldeia

A aldeia do Trebilhadouro, situada no lugar de Sandiães, na freguesia de Rôge, integra um conjunto de núcleos rurais, no concelho de Vale de Cambra. Estes apresentam características que, pela sua particularidade, se prestam a preservar, recuperar e valorizar.

Naquele grupo, Trebilhadouro manifesta qualidades específicas, uma vez que se trata de um aglomerado com um número relevante de construções, dispostas numa estrutura própria e que tem como singularidade o facto de se encontrar desabitada há mais de 15 anos, permitindo uma intervenção global.

A sua localização, exposição e configuração são potenciadoras de um aproveitamento para fins turísticos. É, com efeito, a sua exposição a sul, uma mais valia para a atractividade deste lugar e que indicia a probabilidade de, antes de ter sido passagem de povos romanos, tenha aqui habitado algum núcleo lusitano.

“(…) O lugar de Trebilhadouro, de cujo nome ainda não se descobriram as origens, é bastante antigo; nas bases de dois canastros de pedra lavada encontram-se gravadas datas do século passado, mas presume-se que esta aldeia tenha sido habitada em épocas mais remotas devido à sua altitude (cerca de 600 metros acima do nível médio das águas do mar), e como é virada a Sul e abrigada a Norte é provável que antes da passagem dos povos Romanos por esta zona tenha habitado aqui algum núcleo Lusitano; lembramos que os povos Lusitanos se dedicavam à pastorícia; ora esta área é propícia a essa actividade, mas (…) não dispomos de documentos comprovativos desse facto (…). Provavelmente é a única aldeia do concelho de Vale de Cambra onde a arquitectura tradicional da casa rural portuguesa ainda se mantém, à excepção de um palheiro que foi restaurado com blocos de cimento. Facto pouco significativo se comparado com outras aldeias, onde as “Maisons” proliferam desordenadamente.”

Durante três dias no ano é organizado nesta aldeia o Festival de Artes e Culturas Tradicionais, promovido pela Rasgo, Junta de Freguesia de Rôge e Câmara Municipal de Vale de Cambra.

O Festival iniciou-se, precisamente, para chamar a atenção de todos para a necessidade de preservar esta aldeia.

O evento envolve “Workshops” de arte, cinema, teatro, jogos populares, artesanato e danças tradicionais. O artesanato, a música ou a gastronomia são apresentados aos visitantes tal como em tempos não muito longínquos. Jogos tradicionais, as caminhadas, as leituras ou mesmo os contos à fogueira são algumas das actividades habitualmente propostas.



Workshop em 2004

Alguns Dados Sócio-Demográficos

A aldeia de Trebilhadouro faz parte do lugar de Sandiães. Freguesia de Rôge. Rôge, juntamente com Arões, Cepelos, Junqueira, Rôge e Vila Cova de Perrinho, que são as freguesias que integram a área mais interior e rural do concelho, são aquelas que nas últimas quatro décadas têm vindo a perder população. Sandiães é o lugar mais populoso da freguesia, com 417 habitantes.

Em 2001, Rôge apresentava 1901 habitantes, menos 32 habitantes que em 1991. A freguesia desenvolve-se numa área de 19 Km2 e tem uma densidade populacional de 102 hab/Km2, o que contrasta com o centro do concelho, com 752 hab/Km2.



Um dos grandes problemas a que se assiste no município relaciona-se com a distribuição da população por grupos etários. Esta revela um elevado envelhecimento demográfico. Verifica-se, efectivamente, que o índice de envelhecimento no concelho tem vindo a aumentar de uma forma acentuada nas últimas décadas. Assim, enquanto que em 1970 para cada 100 jovens havia 33 idosos, em 2001 para cada 100 jovens há 103 idosos.

Tal situação também sofreu um agravamento no país e na região do Entre Douro e Vouga (EDV), encontrando-se Vale de Cambra próximo do índice de envelhecimento do Continente e acima do EDV. O valor correspondente para a freguesia de Rôge é de 119,5, superior à média concelhia. Esta situação alerta para a crescente desertificação do interior do concelho que urge contrariar

Na freguesia de Rôge 7% dos activos dedica-se ao sector primário, assumindo-se o sector secundário o maior empregador (64%) e representando o terciário 29% dos activos. A actividade agrícola é, sobretudo, desenvolvida pela mulher, colaborando o homem a tempo parcial, no período sobrante da actividade principal.

Na freguesia é possível encontrar um património rico quer do ponto de vista do construído, quer da paisagem. Na realidade, o cruzeiro de Rôge (Imóvel classificado), elemento patrimonial de origem setecentista e a igreja adjacente têm grande significado histórico e arquitectónico.

A paisagem é verde, com as encostas em socalcos e a água como elemento integrador. Alguns aglomerados conservam o carácter rural tradicional.







Memória Descritiva

1. Introdução

A presente memória descritiva refere-se à proposta de intervenção para a “Reabilitação da Aldeia do Trebilhadouro”, situada na Freguesia de Rôge, Concelho de Vale de Cambra.

A proposta de intervenção visa atingir os objectivos fundamentais para a valorização e promoção das condições de desenvolvimento da Aldeia do Trebilhadouro, através de três grandes linhas de acção, nomeadamente a revitalização do espaço público, a implementação das redes de infraestruturas básicas e, numa fase posterior, a reabilitação urbana do conjunto edificado.



2. Revitalização do Espaço Público

A revitalização do espaço público caracteriza-se, em primeiro lugar, na qualificação do arruamento da Aldeia do Trebilhadouro, constituído por um acesso com largura irregular, variável entre 1.60m e 4.00m, não permitindo o acesso viário em todo o seu percurso, com uma plataforma bastante irregular e apresentando-se em terra batida ou lageado de granito, sendo de todo necessário uniformizar o pavimento.

Partindo desta condicionante, a proposta visa a regularização do pavimento e aplicação de calçada irregular de granito, nas dimensões mínimas de 0.50x0.30x0.20m, cuja iluminação pública será feita através de aplicação de projectores de embutir no pavimento em aço inox e de baixa intensidade, tipo LED.

Ao longo do acesso encontramos muros, com cerca de 0.80m de altura e que delimitam o espaço público pedonal, parcialmente demolidos, pelo que se pretende o restauro dos mesmos, bem como das ramadas com estruturas em esteios de granito e travamento em madeira, que, pontualmente, surgem harmoniosamente nos percursos com perfis transversais mais reduzidos.

A área do espaço público caracteriza-se ainda pela existência de “largos” de estadia cuja expressividade é notória e digna de intervenção. Neles se pretendem a introdução de algum mobiliário urbano, tais como bancos, papeleiras e sinalética, em granito e madeira, dado serem os materiais dominantes da região.

Ao conjunto de iniciativas previstas no espaço público, designamos “Acções Propostas”, que se identificam, mais pormenorizadamente, as intervenções a levar a efeito, tais como:

Acção 01 – Porta Sul Um dos pontos de acesso a Aldeia do Trebilhadouro, deve ser devidamente assinalado como ponto de referência através da colocação de painel informativo de “entrada”, onde se encontraram os dados necessários para a identificação do local, suas dinâmicas e pontos de interesse. O painel, será em estrutura de madeira com suporte em granito e cobertura em madeira.

No local existe um tanque de apoio ao combate aos incêndios, que carece de recuperação e minimização do impacto visual que gera. Propõe-se o seu rebaixamento e integração na envolvente, mantendo a sua função primordial.

Tem início a iluminação cénica do espaço pedonal, através da aplicação de projectores de embutir no pavimento em aço inox e de baixa intensidade, tipo LED referência BEGA nº8696, resistentes a passagem eventual de veículos. Esta iluminação visa a marcação, entre muros ou construções, do acesso, como elemento dominante do espaço público.

Ainda em termos de iluminação, pretende-se a identificação do conjunto edificado através de projectores de alta potência colocados em pontos equidistantes capazes de promover a visualização de toda a Aldeia.





Acção 02 – Largo da Paragem

A zona de estadia, pela sobrelargura do espaço público, será ponto de “paragem” com aplicação de mobiliário urbano (bancos, papeleira e sinaléctica) em estrutura de granito e madeira.





Acção 03 – Percurso da Ramada Ponto de reduzido perfil transversal, onde identificamos,porém, a ramada sobre o acesso com elemento dominante. Assim, pretende-se a recuperação da estrutura em esteios de granito e travamento em madeira para a plantação de videira e revitalização do percurso existente. Na perspectiva de reabilitação nos moldes tradicionais, encontramos nesta acção a recuperação de um espigueiro e eira, onde se deve eliminar todo e qualquer elemento de betão ou outro elemento dissonante do conjunto edificado.





Acção 04 – Espaço Central Local caracterizado pela centralidade mais expressiva da Aldeia do Trebilhadouro, dada a existência do fontanário, tanque e presa. É o local mais relevante e privilegiado de estar, onde domina a extensão de vistas, tendo como especial “pano de fundo” o mar… Efectuar-se-á recuperação do tanque, mantendo as placas de granito onde lavavam e reconstruindo a área de “tanque”. Sobre o tanque e para minimizar o calor, recuperaremos a ramada conforme mencionado nas outras acções.

A presa será um elemento fundamental neste espaço, cuja revitalização tem início com a limpeza da base e muros envolventes, onde será aplicada guarda em peças de madeira e a colocada, junto do acesso, de cubos de granito que servirão de bancos e vedação. No interior da presa serão aplicados projectores subaquáticos de baixa voltagem.





Acção 05 – Largo do Miradouro Ponto de referência para informar sobre a extensão de vistas, ou seja deste este largo até o espaço central, privilegiamos da extensão de vistas sobre o vale e até onde a vista pode alcançar. Deve ser introduzida sinalética adequada à informação necessária através de painéis onde serão identificados os dados da Aldeia e demais pormenores relevantes.





Acção 06 – Praça do Festival

O Festival anual do Trebilhadouro dinamiza este espaço com a divulgação da cultura, artesanato e tradições locais, sendo indispensável a aquisição desta área, necessária para a colocação do palco, tendas e equipamento utilizado no festival, devendo, na sua utilização anual, servir como ponto de estadia informal e, eventualmente, para a construção de equipamento de apoio.





Acção 07 – Escadinhas da Aldeia

Tratando-se de um acesso exclusivamente pedonal e com diferença de cotas relevantes, entre a via pública e a Aldeia, pretende-se a reconstrução dos muros marginais, pavimentação em calçada e, pontualmente, degraus maciços de granito.





Acção 08 – Porta Norte

Nos termos indicados no acesso sul, com excepção do tanque, teremos que privilegiar também esta “entrada”, com inclinação menos acentuada e onde se identifica a proximidade de 4 construções em banda e muros que suportam socalcos, que pelo conjunto edificado e topografia que constituem em si, formam um elemento de referência para a iluminação cénica de referência visual que se deseja tirar partido para a valorização da Aldeia.





Acção 09 – Revitalização da via pública

A via, recentemente, pavimentada em cubos de granito apresenta-se em bom estado, sendo de intervir na limpeza da vegetação excedente que prejudica a visualização da Aldeia e realizar a aquisição de terreno para a implantação de parque de estacionamento, com sinalética apropriada para o efeito.







3. Infraestruturas

A resolução dos problemas de acessibilidade e melhoria das condições de habitabilidade determinam diversas intervenções, tais como, rede viária principal e local, criação das redes de abastecimento de água, drenagem de água residuais e pluviais, bem como o prolongamento da rede de fornecimento de energia eléctrica.

A rede viária existente encontra-se, no acesso sul, em betuminoso com cerca de 4m de perfil transversal, na zona compreendida entre os “acesso a Aldeia”, encontramos a via em cubos de granito, sendo que a partir do acesso norte, a mesma está em terra batida, sendo basicamente um caminho florestal em más condições de acessibilidade.

A proposta de intervenção na rede viária consiste na regularização do caminho florestal, com colocação de valetas e pavimentação em betuminoso, por forma a garantir um percurso viário em ambos os sentido de acesso a Aldeia do Trebilhadouro, criando um circuito com as demais aldeias rurais na envolvente.

Nos pontos designados por “acessos a Aldeia” estão propostos redutores de velocidade, em cubos de granito, que minimizem o excesso de velocidade e promovam a identificação da proximidade da Aldeia.

Ao nível das infraestruturas básicas, propõe-se o abastecimento de água através de furo artesiano, com reservatório e estação de tratamento apropriado, cuja distribuição se efectuará ao longo do arruamento da Aldeia, juntamente com a drenagem de águas residuais e pluviais.

As águas residuais, serão recolhidas em ETAR compacta, a construir em terreno a adquirir para o efeito. A recolha das águas pluviais será posteriormente ligada ao curso de água existente.

O fornecimento de energia eléctrica é uma das redes fundamentais, prevendo-se seu prolongamento desde o cruzamento do acesso ao campo de jogos existente até a Aldeia e deste ponto será distribuída a rede de iluminação pública do caminho, bem como ao longo deste serão aplicadas caixas de ligação para o futuro fornecimento de energia eléctrica as habitações. Para o local deve ser contemplada a colocação de PT aéreo para a garantia do fornecimento de energia eléctrica em boas condições.





4. Reabilitação do Conjunto Edificado

A reabilitação urbana do conjunto edificado, a propor posteriormente, prevê a recuperação das fachadas, que consistem, essencialmente:

Recuperação das alvenarias de granito, onde deverá ser removido todo tipo de sujidade ou material dissonante. A intervenção deve ser através de limpeza ligeira, ou seja, por escovagem tendo o cuidado de não destacar as argamassas pontuais existentes. Prevendo-se o fechamento das juntas com argamassas pobres, para consolidação dos pontos mais desfavoráveis e ainda a impermeabilização dos granitos com verniz;

Aplicação de caixilharias de madeira maciça de castanho, em janelas e portões, devidamente impermeabilizadas e onde será aplicado acabamento em verniz incolor;

Reconstrução das coberturas, em estrutura de madeira, incluindo ripado, colocação de telha cerâmica e frontão em madeira.

A reabilitação do interior das construções é de responsabilidade dos privados, no entanto as obras a levar a efeito deverão respeitar toda a estrutura portante dos edifícios, nomeadamente, os madeiramentos de suporte da cobertura e piso.











Historial

Trebilhadouro é uma aldeia perdida nas encostas da Serra da Freita; Rodeada pela serra do Trebilhadouro e o Alto do Galinheiro, é zona de microclima, pois é abrigada dos ventos que sopram do Norte. Do alto destes montes avistam-se o mar e a ria de Aveiro, bem como outras cidades do Litoral, todo o Vale de Cambra e a Serra da Freita. É também aqui que nasce um ribeiro que desagua no rio Caima, cujas águas servem para regar os campos das aldeias vizinhas.



O lugar de Trebilhadouro, cujo o nome ainda não se descobriram as origens, é bastante antigo; nas bases de dois canastros de pedra lavada encontram-se gravadas datas do século passado, mas presume-se que esta aldeia tenha sido habitada em épocas mais remotas devido à sua altitude (cerca de "600 metros" acima do nível médio das águas do mar), e como é virada a Sul e abrigada a Norte é provável que antes da passagem dos povos Romanos por esta zona tenha habitado aqui algum núcleo Lusitano: lembramos que os povos Lusitanos se dedicavam à pastorícia; ora esta área é propícia a essa actividade, mas como não dispomos de documentos comprovativos desse facto deixaremos esse trabalho para outros estudiosos na matéria.

Provavelmente é a única aldeia do concelho de Vale de Cambra onde a arquitectura tradicional da casa rural portuguesa ainda se mantém, à excepção de um palheiro que foi restaurado com blocos de cimento. Facto pouco significativo se comparado com outras aldeias, onde as “Maisons” proliferam desordenadamente.

O ultimo melhoramento cá feito foi a recuperação do fontanário da aldeia que estava em ruínas em 1987, por Cristina Brás e Aníbal Augusto da Costa, no âmbito do curso de Cantaria que frequentavam no Porto, e com a colaboração da Junta de Freguesia de Rôge, recuperou-se o fontanário que marca o centro da aldeia.

Rôge é uma freguesia muito antiga, conta na sua história as marcas de um passado muito rico, deixado pelos povos que a visitaram, desde os Lusitanos que nas montanhas habitaram, aos Mouros que lutaram contra os Romanos que por aqui estiveram e deixaram nesta freguesia pelo menos uma das suas pontes características chamada “Castelo”.

Pelo século XVII foi erguido o cruzeiro de Rôge todo em pedra esculpida. Hoje é considerado Monumento Nacional. A igreja de Rôge também é rica em Cantaria. É incrível também, o registo escultórico lá existente,desde os esteios, que são feitos todos de pedra, alguns a recordarem menires; até aos trabalhos de cantaria registados em canastros e algumas casas.



O aspecto humano não é tão risonho; até alguns anos a esta data, viviam a tia Maria e a tia Francelina, mãe e filha respectivamente, habitavam em Trebilhadouro: sem luz eléctrica. Sem telefone e nem sequer um caminho satisfatório com que possam comunicar com as aldeias vizinhas, estas duas senhoras sobreviviam à custa de umas ovelhas e umas hortas que cultivavam.

Segundo nos contaram, em 1987 (Cristina Brás e Aníbal Costa), os mais novos começaram a fugir para Sandiães, Soutelo, Fuste e para outras aldeias onde existiam escolas primárias, electricidade, telefone e melhores vias de comunicação e condições de vida; foram as ultimas pessoas a sair desta aldeia, depois da morte do Sr. Barbosa, que esteve no Brasil e quando para cá veio teve uma trombose que o paralisou, mas ainda fazia colheres de pau artesanalmente; a sua mulher e filha abandonaram Trebilhadouro talvez para sempre.

Trebilhadouro, uma aldeia para o alerta para uma situação que afecta muitos monumentos de pedra e as sua raízes culturais, ou são preservados, ou perdem-se definitivamente na voragem dos tempos.





“ Quando desaparecer a cultura de um povo, restará apenas o quê?”


Urge criar a vontade e o gosto na preservação dos nossos passados, nos documentos e obras que nos foram deixando ao longo dos séculos. E que formidável exemplo para os vindouros!

Como os telhados de algumas casas já estão destruídos, devido ao apodrecimento das madeiras que os suportavam, a natureza sob a forma de silvas, giestas e outra vegetação, está a apoderar-se das casas; o mais provável acontecer é que estas desmoronem.

Por conseguinte, a única maneira de conservar toda aquela arquitectura é habitar as próprias casas, realizar eventos, de outro modo, depois das casas se desmoronarem não vai ser difícil de muitos “caçadores de tesouros” ali procurarem muitas das pedras mais importantes que por lá existem, como as das lareiras e dos fornos de cozer o pão. E nessa altura será demasiado tarde…